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Comer Orgânico é um ato político

Entrevistamos Elaine de Azevedo, que é doutora em Sociologia Política na área de Sociologia Ambiental e Sociologia do Conhecimento Científico. Ela fez estágio pós doutoral no Departamento de Prática de Saúde Pública, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pesquisando os campos de estudo da Agroecologia e da Promoção da Saúde. Atualmente é Professora Adjunta na Universidade Federal do Espírito Santo e também autora do livro “Elementos Orgânicos”. Assim, o orgânico se torna parte vital do seu estudo e ela explica como elee

1.Muitos desqualificam o discurso em defesa dos orgânicos pelo seu preço superior e baixa produtividade. Como você lida com essas questões?

É uma realidade que a gente ainda tem orgânicos que podem custar de 20 até 100% a mais. O alimento orgânico, como qualquer produto mercadológico, entra nessa visão de oferta e demanda. Quando a oferta é maior que a demanda, ou vice-versa, você tem um produto mais caro. Então, é preciso, nesse sentido, que o consumidor que já pode comprar orgânico, que já tem condições de pagar um pouco mais, comprando, possa balancear essa relação entre oferta e demanda. Outra forma de fazer isso é com vontade política. Se a gente colocar, por exemplo, o orgânico no nível institucional, ou seja, de prisões, escolas, alimentação escolar, hospitais, de forma que o agricultor tenha garantia de vender por 12 meses e dessa forma, produzir tendo um preço mais em conta para o consumidor. Então isso depende de vontade política, assim como subsídio para a agricultura familiar orgânica, que é quase inexistente no Brasil, abertura de mercados locais onde o produtor possa vender diretamente ao consumidor… Então essa é outra questão: quando o consumidor compra direto do produtor, ele consegue um preço bem mais acessível. Quando é intermediado por grandes redes varejistas, como supermercados, esse preço se torna bem mais alto. Então, a venda direta através de mercados locais, feiras, entrega de cestas ou então outras estratégias como a comunidade que sustenta a agricultura, que é aquela comunidade que compra do agricultor 12 meses antes dele produzir, que já tá apoiando a safra, e depois ela vai recebendo, ela é uma parceira do agricultor. Ou seja, tem muitas estratégias criativas que podem levar a um barateamento. No momento, realmente, a gente tem uma inacessibilidade à uma determinada classe social, que ao meu ver não consegue comprar nem alimentos de qualidade, muito menos orgânicos. Qual é o valor de um alimento barato que destrói o meio ambiente, que retira o agricultor de um processo positivo, que prejudica sua saúde? Eu costumo dizer que o que você não gasta na feira, você gasta na farmácia, gasta no seu seguro saúde. Então também tem outra perspectiva que é mudar o modo como você olha sua promoção da saúde, o que é valioso pra você.

Em relação à produtividade, tem um erro na sua questão: o orgânico não é menos produtivo. Pelo menos não o produto orgânico de origem vegetal. Há vários estudos que já mostram, tem um estudo especificamente na Universidade de Washington, que mostra que o orgânico de origem vegetal em poli cultivo, não em monocultura (não é isso que a gente deseja né, monocultura não produz comida necessariamente) ele pode ser de 10 a 20% menos produtivo. A diferença é que o alimento orgânico de origem animal tem menor produtividade sim, porque não se admite o confinamento animal, que interfere no bem-estar animal. E a gente teria, se assumisse uma pecuária orgânica, além das questões éticas de bem-estar animal, menos oferta de proteína animal, que é desejável do ponto de vista da saúde pública. Nós não precisamos comer o tanto de proteína que comemos. Então, uma transição numa dieta baseada em plantas, seria a dieta ideal para o ser urbano, sedentário, que vive nessa faixa central do hemisfério do planeta.Ou seja, é possível sim termos alimentos orgânicos se a gente se voltar pra uma dieta baseada em planta. Inclusive, essa dieta é o futuro da nossa capacidade de se alimentar no planeta. Com ou sem mudança no sistema, nós não vamos conseguir alimentar as gerações que vem com essa grande quantidade de alimento de proteína animal, de pecuária, suinocultura, frangos, que interfere muito no meio ambiente. O impacto ambiental da produção é muito grande. Isso tem que ser pensado nesse conjunto.

2.De que forma a micropolítica na alimentação pode ser comunicada nas mídias para se reverberar na sociedade?

As questões do orgânico dependem de vontade política, de um governo que priorize a saúde do seu povo em detrimento das relações com o neoliberalismo e políticas de caráter econômico. Então as micropolíticas do cotidiano, elas tão sendo divulgadas em associações, em feiras, por alguns especialistas, em cursos, usando as mídias não hegemônicas, que tão discutindo claramente essa relação do agrotóxico, das agriculturas sustentáveis. Existe um movimento paralelo né, é o movimento orgânico, é o movimento do locavorismo, é o movimento da agroecologia, é o MST produzindo comida. É difícil, então o jornalismo livre e as mídias independentes são de grande importância nesse momento, porque como todo mundo sabe, nós estamos sendo manipulados, isso há muito tempo e agora com mais evidência, pela hegemonia de certas mídias que servem descaradamente ao sistema em detrimento de um jornalismo de formação de qualidade.

3.Quais políticas públicas podem contribuir para a maior produção de orgânicos?

Hoje 25% do orçamento da agricultura vai para o agricultor familiar, que é aquele que produz orgânico, e 75% vai para o agronegócio. Se a gente dividisse no meio isso, e nesse meio, uma porcentagem fosse para o agricultor familiar orgânico, a gente teria uma mudança. Políticas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que tá sendo enfraquecido, o Programa de Aquisição de Alimento, que tá sendo desqualificado, o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional… Ou seja, existe sim várias políticas de apoio ao meio ambiente, que precisam dialogar com as políticas de agricultura sustentável, porque não adianta a gente pensar em conservar florestas sem pensar na pecuária, por exemplo. Então, as políticas de meio ambiente, as políticas de reforma agrária, as políticas de apoio à agricultura familiar e as políticas de bem-estar social, de acesso à educação, moradia, são todas elas que facilitariam o acesso a alimento de qualidade.

4.O vegetarianismo/veganismo é uma resposta para a melhoria da saúde social de maneira geral?

 O vegetarianismo é uma das respostas. É inevitável que nós vamos ter uma dieta baseada em plantas e nós temos que consumir menos carne. Eu costumo brincar que eu sou a favor da campanha da “segunda com carne”, só na segunda feira. Ou seja, que a gente tem que diminuir, não há dúvida, agora o vegetarianismo tem que ser discutido. Ele é uma grande opção dentro de uma perspectiva de mudança do sistema. Ninguém tá pensando que pode mudar o sistema sendo vegano, vegetariano, comendo macarrão branco, suplemento sintético da indústria alimentar, açúcar branco… Não vai ter nem impacto para a sua saúde, que muitos veganos/vegetarianos buscam e muito menos para o sistema agroalimentar. Então a mudança é sim necessária, o veganismo, como o locavorismo, deve discutir com todas as formas de agricultura sustentável, com a reforma agrária, com os movimentos ambientais e com as perspectivas de cuidado e ética com o animal, que são realmente muito sérias e precisam ser trazidas à tona na sociedade. Na sociedade antropocentrista, que realmente desqualifica a natureza e os seres animais, seu bem-estar e a sua possibilidade e necessidade de viver bem, também.

5.Quais os pequenos atos que você indicaria para quem está começando a tentar ter uma alimentação mais consciente?  

Sempre que possível, compre o alimento orgânico.Mudar a alimentação gradativamente, inserir mais alimentos orgânicos, integrais, frescos, de agricultura familiar, é uma ação efetiva, que vai realmente também ser uma ação política, porque você vai questionar a indústria do alimento industrializado que é prevalecente no país e tem seus interesses muito claros. Então, eu diria que essas ações são importantes, se vincular a comunidades que sustentam agricultura, se vincular a associações de consumidores orgânicos pra que se possa ter o alimento mais barato, plantar em casa (quem tem acesso), ter acesso a hortas urbanas que tão crescendo em escolas, optar por escolas que estão fazendo esse trabalho, que você pode ter também como PAE  em escolas públicas, alimentos como os PANC (plantas alimentícias não convencionais) , alimentos orgânicos, alimentos vegetais mais acessíveis.Então existem vários  modos de curar, modos de comer, porque existem vários modos de pensar o nosso futuro, o nosso presente e a nossa relação com o meio ambiente e com o próximo, com o outro.

Esse blog tem o intuito de oferecer alternativas à nossa forma de consumir alimentos, através do incentivo ao pequeno produtor e da comida de verdade. Toda semana estarei divulgando alguma feira (livre ou fixa), mercado ou coletivo da cidade de São Paulo que vai ajudar a fugir dos orgânicos inflacionados oferecidos pelos supermercados convencionais. Tudo a um preço justo que pode te convencer a experimentar novas formas de enxergar o que você come. Mas não se preocupe! O meu propósito aqui não é propor uma revolução completa no padrão de vida urbano e tentar te convencer a viver em um pedacinho de terra no interior do país.

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